
O que uma casa pensa de si
Se nunca foi moradia?
Nunca mais de alguns dias
Nunca mais que um feriado?
O que pensa de si o sobrado
Que passou os natais fechado
E desfilou carnavais alugado
O que pensa de si a varanda
Que mesmo olhando pro oceano
Só tinha uma rede de pano
Para olhar o passar dos anos?
- Por que não nasci quitanda?
Teria talvez a esperança
De um dia virar mercado!
Ou continuar armazém
De secos e molhados
O que pensou de nós aquela casa
Quando a deixamos sozinha
Do dia pra noite
Batemos asas como andorinhas
Em busca de outro verão
Virou só uma fotografia
Solar, do que não mais existe
Perdeu o mar na janela
O luar na soleira da porta
Ela nem é mais ela
E ninguém mais se importa
Como se casa não tivesse coração
Hoje eu descobri, muito triste
Que coração, ela tinha
Nós é que não.

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