sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

RAINHA

Rainha das noites acesas

Iara dos rios estrelados

O tempo

É seu moleque de recados

Cachaça de cabeça

Poesia noturna

E sem pressa

Traz amores do passado

Pra navegar

Pelas salas brilhantes

Dos subúrbios

Entre velhos e móveis Jacarandás

Varando as madrugadas

Tontas e lentas

De horas contadas

Pelos dormentes dos trens

Tem nas lágrimas

O fogo das pimentas

Que nenhum colírio

Conseguirá acalmar

Todas as noites

Resolve os problemas

Do mundo

E quando o dia desperta

Alerta em sono profundo

Deixa as manhãs

E seus delírios

Pra quem não sabe voar.

BAR

Acordei

O dia

Já estava proposto

Mais um dia

Um imposto

A contragosto

Acendo o olho

E não era de manhã

Encolho

Tudo era

Continuar ali

Deitado

Esperto

De molho

Como um tiragosto

Decorando o teto

Nem carinho nem afeto

Nem rumo certo

Livro inútil

Analfabeto

Triste perfeito

Uma noite

Fútil

Sem bar aberto

NOVEMBRO

Nas tardes nervosas

É quando me lembro

Mais de você

Chegando chuvosa

Querendo calmantes

Sem saber por quê

Suando nas mãos

Pedindo outra dose

E eu tentando antes

Te acalmar por osmose

Nessas tardes estranhas

Geralmente em novembro

Eu movia montanhas

Pra te ver sorrir

Mas já tinha a manha

Pra ver cada membro

Querendo partir

Queria alto mar

E eu era o porto

Tentando te segurar

Nessas tardes nuviosas

De céu claro-escuro

Seus olhos duros

Feito ardósias

Queriam me petrificar

Entre as amarras do cais

Até que zarparam

Sem olhar pra trás

Já era dezembro

De tardes fluviais

Mas fiquei em paz

Novo Coração

Ela me pluga

Me beija, me suga

Me sanguessuga demais

Procura outro rapaz

Se não mais me deseja

Depois me aluga

Me molha, me enxuga

Me beija as rugas da testa

Chega trazendo uma festa

Quando a cidade madruga

Ela me ensinou a voar

Dentro das nuvens do mar

Ela me ensinou a nadar

Sobre as ondas do céu

Sem sair do lugar

Ela é a chuva que vem primaverar

Minha vida desértica

Minhas noites antárticas

Ela é sempre mais um verão

Feito um novo coração

LAVANDA

Pandeiro tem platinela

Bicicleta tem pedivela

Meu coração tem janela

Que abre pro mar

Marinheiro tem barco a vela

O segredo é de quem não revela

Birosqueiro é rei na favela

Acorda antes do bar

Minha casa tem varanda

(onde canta o sabiá)

Meu jardim é minha quitanda

O bonde é lento mas anda

Grande marionete a rodar

Meu amor é minha lavanda

Lavanda que vem me lavar

Lavanda que vem perfumar

Lavanda que vem me amar