terça-feira, 20 de outubro de 2009

POETAGEM


Não se deixe iludir

Pela rima rica

Do café society

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Eu sou rascunho

Riscado a próprio punho

Nos muros dos palácios

Sou água da bica

Que tinge e inventa

Bibelô de um e noventa

Inove o número

Bala perdida que atinge

O alvo sem sorte

Sou da boa, do norte

Como o fel da rapadura

Sou poetagem

A última pizza pra viagem

Idéia fixa

Massagem com sotaque de longe

Que a gente curte

Em silêncio, à luz de vela

Sou o orkut

Que se esconde

Estêncil

Que incrimina

A falta de fé

Do monge

Estou em casa

No exílio

Joguei ao vento

As cinzas do filho

Sou ouro sem mina

Do camelô

Da esquina

Rimas em lata

O brilho do olhar

Através da catarata

O tesouro incerto

Da ilha deserta

A cartomante

Que não acerta

Sou suor

De todas as febres

Alma em pó

Comprado a quilo

Fantasia costurada à mão

Sem anestesia nem estilo

Nem código de barras

Sou o último canto

Da cigarra lenta

O discurso da palma

Do pandeirista

A letra dó

Sou repente

Alérgico às canções

O zeroitocentos lisérgico

Da Previsão do Tempo

O filme sem foco

Do celular

A sensatez

Que o absurdo revela

A língua presa do tagarela

Sou palavra sistólica

Do compasso avulso

Sou antena parabólica

Na favela

A bola sem vez

No verde roto

Do bilhar da birosca

A mosca

À mostra

No copo de leite

A vaidade

Sem o enfeite

Pipa caindo

Entre os edifícios

O melhor dos vícios

Sou o grito que eu invento

Contra o medo do medo.