Não se deixe iludir
Pela rima rica
Do café society
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Eu sou rascunho
Riscado a próprio punho
Nos muros dos palácios
Sou água da bica
Que tinge e inventa
Bibelô de um e noventa
Inove o número
Bala perdida que atinge
O alvo sem sorte
Sou da boa, do norte
Como o fel da rapadura
Sou poetagem
A última pizza pra viagem
Idéia fixa
Massagem com sotaque de longe
Que a gente curte
Em silêncio, à luz de vela
Sou o orkut
Que se esconde
Estêncil
Que incrimina
A falta de fé
Do monge
Estou em casa
No exílio
Joguei ao vento
As cinzas do filho
Sou ouro sem mina
Do camelô
Da esquina
Rimas em lata
O brilho do olhar
Através da catarata
O tesouro incerto
Da ilha deserta
A cartomante
Que não acerta
Sou suor
De todas as febres
Alma em pó
Comprado a quilo
Fantasia costurada à mão
Sem anestesia nem estilo
Nem código de barras
Sou o último canto
Da cigarra lenta
O discurso da palma
Do pandeirista
A letra dó
Sou repente
Alérgico às canções
O zeroitocentos lisérgico
Da Previsão do Tempo
O filme sem foco
Do celular
A sensatez
Que o absurdo revela
A língua presa do tagarela
Sou palavra sistólica
Do compasso avulso
Sou antena parabólica
Na favela
A bola sem vez
No verde roto
Do bilhar da birosca
A mosca
À mostra
No copo de leite
A vaidade
Sem o enfeite
Pipa caindo
Entre os edifícios
O melhor dos vícios
Sou o grito que eu invento
Contra o medo do medo.
