sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

DEBAIXO DAS COBERTAS

O dia nascendo lá fora

A nova manhã já chegou

Não faz mal se chove agora

Logo mais vai fazer calor

O que importa é que mais flores

Vão se abrir, novos amores

Vão se descobrir

A vida está sempre certa

E você fica aí debaixo das cobertas

Hoje talvez não seja um dia comum

Pode ser o meu aniversário

(E lá se vai mais um)

Muita gente vai morrer de fome

Vai ter outra greve dos bancários

Vivemos numa ditadura

Com nome falso, enganando otários

Aquela gente é muito esperta

Não vai sobrar nem rapadura

E você fica aí debaixo das cobertas

A noite chega devagar

Que é pra gente se acostumar

A ver novela, bang-bang

Televisão, julioiglésias

E a gente embarca na amnésia

Enquanto a rua cheira a sangue

Os escritórios adormecem

E começam os verdadeiros negócios

Elevadores sobem e descem

E a gente finge que não se aperta

Pensa que tudo é um carro

E mulher bonita

Passa a noite debaixo das cobertas

E joga água no bêbado que grita.

METAMORFOSE

Chegou na beira do morro

Fazendo milagre

Transformou o litro de vinho

Em vinagre

De uma bisnaga

Fez um pão francês

O dono da venda virou freguês

O litro de leite virou saco d’água

A lata de azeite virou banha pura

E o pudim de coco virou rapadura

Roupa de domingo virou macacão

O que era casa hoje é barracão

Peixada de sábado virou sardinha

A roda de samba virou vitrolinha

Virou coca-cola a caipirinha

E o enredo da escola virou rebolado

Pras manequinhas

AVE NOTURNA

Minha poesia é ave noturna

Chega depois das novelas

Entra por todas as janelas

E me rouba horas de sono

Tira o conforto da cama

Me faz abrir o caderno

E esquenta as noites do inverno

É supernova no céu

Me faz ouvir os tambores

Das danças da noite escura

Me deixa a alma mais pura

E o corpo não sente dores

A solidão observa

Não entra nessa hora

Fica quieta na espera

De a poesia ir embora

E ela vai, como veio

Nunca sei se vai voltar

Mas a solidão,

Se eu bobeio

Vai chegando pra ficar

BAR DO SERAFIM

Gosto de ficar na beira do botequim

Apenas olhando a rua passar por mim

Feito um rio

Estou cansado demais

Pra seguir correndo atrás da vida

Prefiro olhar meu país

Passando, rodando

Em seu caminho frio

E infeliz

Vejo a moça que entra na farmácia

e se pesa

Mesmo sabendo de cor o seu peso

e a sua reza

Sobe naquela balança torcendo pra ser

feliz

Como se a felicidade

Fosse a exata medida de sua pança!

Vejo a velha senhora

Que já não chora

A morte do esposo

Chora a idade

Passa com seu cachorro

Pedindo socorro

De verdade

Velho cão manhoso

Entra na mesma farmácia

Escolhe os remédios

Que ninguém receitou

Seu doutor é um velho tédio

Que ela um dia enterrou

Vejo o atleta

Cara de pateta

Cheio de energia

Suando a camisa

Tem que gastar a noite

Como se fosse dia

Diz que a morte está perto

Tem seu dia certo

E nunca avisa

E quer viver mais cem anos

Vejo o velho aposentado

Passa no bar de passagem

Falando bobagem

E achando engraçado

Malandro otário

Tira do bolso uma foto

E um controle remoto

Que veio por engano

Fala mal do governo

Mas vota nas mesmas criaturas

De todos os anos

Passa um louco varrido

Sem presente nem pedido

Um louco inteiro

Não pede pão

Rasga dinheiro

Pergunta se eu não vou

Me fila um cigarro

Me pede o isqueiro

E eu acredito nele

Porque só acredito em louco

Com sotaque mineiro

Digo que não vou agora

Ainda não está na hora

De viver a estrada

Chega a empregadinha

Cansada e limpinha

Do banho depois do batente

Mas basta cantar o seu nome

Pra sentar e desabrochar

Feito flor na lama

Conversamos com pena

Ela da gente

A gente da morena

Na beira do botequim

Um cemitério

Desfila no meio da rua

Com toda a tristeza da vida

Cada um chora seu mistério

Cada um sabe o que disse

Cada um sonha o impossível

Só pura ilusão

E eu ali na contramão

Da Rua Alice

VOYEUR

Vejo você na capa da revista
Bela
Feito um tigre de bengala
Vejo as fotos da sua casa
Quartos, cozinha, sala
E seu cachorro azul
Vejo você em capítulos
Vejo você menstruada
Tudo assim tão perfeito
Que nem parece vida real
Eu sei que não é tudo assim
Li seus poemas
Sei que o amor é complicado
Pra você, como é pra mim
Sei que você baba na fronha
E morre de vergonha
Nos momentos inusitados
Mas jamais saberei
Quantos lados
Você ainda tem pra mostrar.