terça-feira, 29 de abril de 2008

NO MAR

Minha alegria joguei no mar

Minha esperança

Minha criança joguei no mar

Meu estribilho

Meu filho joguei no mar

Minha pirraça

Minha cachaça joguei no mar

Minha sacola

Minha escola joguei no mar

Meu pesadelo

Meu cabelo joguei no mar

Meu automóvel

Meu pau imóvel joguei no mar

Meu bibelô

Meu camelô joguei no mar

Minha rainha

Erva daninha joguei no mar

Meu tamanco

Meu vinho branco joguei no mar

Meu avião

Meu ribeirão joguei no mar

Meu baseado

Meu cadeado joguei no mar

Minha vida

Minha velha vida joguei no mar

Minha poesia

Mas um dia fui lá buscar.

BARBA RALA

Minha barba é rala

Não consigo viver

Meu personagem

Não tenho mais sala

Nem roteiro de viagem

Talão de cheques

Cartão de visita

Documentos de automóvel

Coisas idiotas do passado

Mão no bolso:

Dinheiro trocado, canivete

Um poema de guardanapo

Nem um retrato.

Nem uma fala.

Nem um número.

Uma passagem pra São Paulo.

BAIÃO DE DOIS

O caminho do amor

Dá voltas em flor

Em forma de coração

Também requer paciência

Inexata ciência

Que tenta explicar a solidão

É o caminho das pedras

Andar sobre brasas

Sabendo que os pés vão queimar

Saber voar sem ter asas

Sem temer as quedas

E nem aonde vai dar

Pode dar muito perto

Em alguém ao seu lado

Na distância de um olhar

Pode dar num Oasis

Que tem sempre um deserto

Para atravessar

Pode dar numa praia

Ou numa cachoeira

Onde a correnteza pode levar

O melhor a fazer

É achar o amor

Primeiro em você

E do outro lado da Lua

Numa noite estrelada

Seu novo amor vai aparecer

MULHERES DE PAPEL (ou Alguém Tem Um Samba Sobrando?)

Ouço um disco de jazz
Que ganhei de um amigo
Que já foi meu irmão
Vejo a conta da light
Custa caro a escuridão
Deixo a porta fechada
Porque tenho vergonha
De estar tão sozinho
Com esse olhar idiota
E esse terno marrom
Que nunca amarrota
Triste é acabar o meu uísque
Triste é ter que amar
Essas mulheres de papel
Triste é ver que o amor
Ainda existe
Triste é te encontrar
Me procurando
Prá poder dormir sem medo
Triste é ter te contado
O meu segredo
Leio um livro de contos
Que ganhei de um irmão
Que já foi meu amigo
E hoje vive dizendo
Que a vida é um grande perigo
Só pensando em você
Vou gritando calado
Com meu nariz entupido:
- Maldito sereno condicionado
Essa noite eu só queria
Te passar meu resfriado

CORRIDA DE SUBMARINOS

O rádio do carro

Sente saudades

De seu dedinho

Apertando teclas

Inventando músicas

Trocando de patrocinador

Pendurando nos botões

A calcinha.

No banco da praça

Amantes sentados

Todos os dias

Amantes falsos

Amantes verdadeiros

Mas sempre amantes.

No ponto do ônibus

Um travestí

Foi assassinado

Em troca de dez barões

E um disco do Roberto Carlos.