Gosto de ficar na beira do botequim
Apenas olhando a rua passar por mim
Feito um rio
Estou cansado demais
Pra seguir correndo atrás da vida
Prefiro olhar meu país
Passando, rodando
Em seu caminho frio
E infeliz
Vejo a moça que entra na farmácia
e se pesa
Mesmo sabendo de cor o seu peso
e a sua reza
Sobe naquela balança torcendo pra ser
feliz
Como se a felicidade
Fosse a exata medida de sua pança!
Vejo a velha senhora
Que já não chora
A morte do esposo
Chora a idade
Passa com seu cachorro
Pedindo socorro
De verdade
Velho cão manhoso
Entra na mesma farmácia
Escolhe os remédios
Que ninguém receitou
Seu doutor é um velho tédio
Que ela um dia enterrou
Vejo o atleta
Cara de pateta
Cheio de energia
Suando a camisa
Tem que gastar a noite
Como se fosse dia
Diz que a morte está perto
Tem seu dia certo
E nunca avisa
E quer viver mais cem anos
Vejo o velho aposentado
Passa no bar de passagem
Falando bobagem
E achando engraçado
Malandro otário
Tira do bolso uma foto
E um controle remoto
Que veio por engano
Fala mal do governo
Mas vota nas mesmas criaturas
De todos os anos
Passa um louco varrido
Sem presente nem pedido
Um louco inteiro
Não pede pão
Rasga dinheiro
Pergunta se eu não vou
Me fila um cigarro
Me pede o isqueiro
E eu acredito nele
Porque só acredito em louco
Com sotaque mineiro
Digo que não vou agora
Ainda não está na hora
De viver a estrada
Chega a empregadinha
Cansada e limpinha
Do banho depois do batente
Mas basta cantar o seu nome
Pra sentar e desabrochar
Feito flor na lama
Conversamos com pena
Ela da gente
A gente da morena
Na beira do botequim
Um cemitério
Desfila no meio da rua
Com toda a tristeza da vida
Cada um chora seu mistério
Cada um sabe o que disse
Cada um sonha o impossível
Só pura ilusão
E eu ali na contramão
Da Rua Alice

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