sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

BAR DO SERAFIM

Gosto de ficar na beira do botequim

Apenas olhando a rua passar por mim

Feito um rio

Estou cansado demais

Pra seguir correndo atrás da vida

Prefiro olhar meu país

Passando, rodando

Em seu caminho frio

E infeliz

Vejo a moça que entra na farmácia

e se pesa

Mesmo sabendo de cor o seu peso

e a sua reza

Sobe naquela balança torcendo pra ser

feliz

Como se a felicidade

Fosse a exata medida de sua pança!

Vejo a velha senhora

Que já não chora

A morte do esposo

Chora a idade

Passa com seu cachorro

Pedindo socorro

De verdade

Velho cão manhoso

Entra na mesma farmácia

Escolhe os remédios

Que ninguém receitou

Seu doutor é um velho tédio

Que ela um dia enterrou

Vejo o atleta

Cara de pateta

Cheio de energia

Suando a camisa

Tem que gastar a noite

Como se fosse dia

Diz que a morte está perto

Tem seu dia certo

E nunca avisa

E quer viver mais cem anos

Vejo o velho aposentado

Passa no bar de passagem

Falando bobagem

E achando engraçado

Malandro otário

Tira do bolso uma foto

E um controle remoto

Que veio por engano

Fala mal do governo

Mas vota nas mesmas criaturas

De todos os anos

Passa um louco varrido

Sem presente nem pedido

Um louco inteiro

Não pede pão

Rasga dinheiro

Pergunta se eu não vou

Me fila um cigarro

Me pede o isqueiro

E eu acredito nele

Porque só acredito em louco

Com sotaque mineiro

Digo que não vou agora

Ainda não está na hora

De viver a estrada

Chega a empregadinha

Cansada e limpinha

Do banho depois do batente

Mas basta cantar o seu nome

Pra sentar e desabrochar

Feito flor na lama

Conversamos com pena

Ela da gente

A gente da morena

Na beira do botequim

Um cemitério

Desfila no meio da rua

Com toda a tristeza da vida

Cada um chora seu mistério

Cada um sabe o que disse

Cada um sonha o impossível

Só pura ilusão

E eu ali na contramão

Da Rua Alice

0 comentários: