quinta-feira, 5 de junho de 2014

TOADA, À TOA DÁ











Toda porteira tem um tranco

Para se abrir

A serra tem barranco

Pra se escorregar

Toda viagem tem destino

Que chamam de fim

Ou não, ou sim

E a vida é

Mistério pra se desvendar

Segredo pra se revelar

Culpa pra se redimir

Mentira pra se duvidar

Quando a chuva transborda

É o mar quem recua

Que é pro rio se avarandar

E quando o sol

Adormecer

A lua acorda

Pra iluminar

E a toada à toa dá

Motivos pra sonhar

E os sonhos

Só existem pra nos acordar




Para toada de Diogo Sili!

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Arraias



Arraias são pipas marinhas
Ou serão peixes voadores?
Elas voam dentro d'água
E mergulham no ar
Elas tem um ferrão perigoso
Como marimbondos do mar
Arraia também dá nos rios
Tem que saber onde pisar
Arraia é um peixe gostoso
Mas tem que saber pescar
Tem que ter faca boa pra cortar
E a pimenta certa pra temperar
Arraia é um peixe do ar
Tem que saber respeitar.




sexta-feira, 9 de maio de 2014

Pé ante pé

O caso é
Foi chegando em mim
Flutuando
A uma núvem do chão
Pé ante pé
Feito uma ladra
Levou o meu coração
Cadela que ladra
Mas morde
A boa cabrita que berra
Que não sabe a matéria
Mas não erra
Desse sonho não tem
Quem acorde
O caminho da perdição

Pois é
Tudo vira uma zona
Sem fim
E a gente insiste
Mesmo que ela seja
Um engano
Por debaixo dos panos
Te odeie
Fique toda bonita
E te enfeie
Pra que outra
Não te deseje
Outra boca
Nunca te beije
Outra louca
Não se aconchegue
Solidão é sempre
Mais triste

Pé ante pé
É a dança
Da moda perigosa
Dona da verdade
Traz a mentira no olhar
Distraída feito o amor
Um olho de cada cor
Pele oleosa
De cobra coral
Linda e venenosa
Sem piedade
Aliança
Do bem com o mal
Te deixa na chuva de vento
Te ajoelha antes do tempo
Feito o teu Juízo Final.

PIPA AVOADA



Eu não sei cantar
Nem sei chegar no tom
Não sei batucar
Nem mexer no som
Mas se ela não vier
Ou chegar sem batom
Não vou chorar
Na praia do Leblon

Se eu toco xacundin
Ou samba de gafieira
Sei mostrar a beleza
De qualquer canção
Só com meu violão
Enfeiticei princesas
Cheguei pelo coração
Simples assim

Tá com medo, tabaréu
Sou linha sem carretel
Caco de vidro no trilho
Esperando o bonde
Eu não tenho filho
Mas tenho todo o céu
O amor só aparece
Quando o sol se esconde


Aula de Dança

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Quando você diz:
Eu sambo!
E sai rebolando
Feito um arlequim
Isso não é samba
É mambo
Samba não se dança assim

Samba faz que vai
Mas não vai
Samba diz que vem
E aí é que vai
Mambo diz também
Mas não sai do lugar
Porque não tem
Uma longa avenida
Para atravessar

Quando a gente samba
Perde todas as noções
Inclusive a do perigo
De silenciarem os corações
É por isso que eu digo
Samba é samba,
Mambo é mambo
Pensa bem, meu amigo
Antes de dizer:
-Eu sambo!

DEDOCAFôNICO



Quando você

Passava as mãos pelos cabelos

Na fila do camarim

E girava a cabeça assim  e assim

Feito um anúncio de xampú

Foram tantas vezes...

Pensei que era piolho...

Mas não tirava o olho

Da dança de seus pelos

O sangue derretia

O velho gelo

Que envolvia

Um coração nú

Que já sabia

O  final do folhetim



Quando você me perguntou

O nome do autor

Que eu musiquei

E te emocionou

Se era um fulano

Da grécia antiga

Ou um dos novos escritores

De países africanos

E eu expliquei

Que era um baiano

Radicado no Havaí

Que havia estado aqui

Há alguns meses

Eu sabia-nos, atores

E que a peça ia dar liga



Quando você no botequim

Acendeu-se para mim

E seu decote era a miragem

Que um jardim em tatuagem

Dizia que era gente de verdade

À minha frente

Feito um pacote

que chegou pelo correio

Com dois seios numa caixa

Quem sabe uma marmita

E apesar da minha faixa 
De idade

E do inevitável gin

Levamos em passeio

O coração batendo cheio

- Até que enfim, até que enfim

Mas eu já conhecia aquela fita

E já sabia  o fim.