terça-feira, 2 de março de 2010

PINGA, SOLIDÃO E PAZ


Quando a noite se desfaz
E o sol traz a manhã
Diamantes pelo pasto
Sorrisos de hortelã
Lenha acesa, pão na mesa
E as flores vem pelo ar
Mesmo quando me afasto
Não saio desse lugar
Vou até a capital
Compro fumo, seda e sal
E volto logo pra fumar
No meu quintal

Uma rede na varanda
Já me satisfaz
Sou meu próprio capataz
Sem louvores
Nem leva e trás
Vou na venda
E a Rosinha
Anota em seu caderno
Nada que não se entenda
Com seu sorriso eterno
E uma dose costumaz
Pinga, solidão e paz
Para esquecer
Olhares de nunca mais


Foto de José Carlos Mello

sábado, 20 de fevereiro de 2010

GALOPE ATRAPALHADO

Na festa da natureza
Poesia é de quem pegar
O canto rouco do sapo
Também é bom de escutar

A vida só é beleza

Pra quem criou como empresa

Viver de papo pro ar

O canto que vem dos rios

Não é igual ao do mar

O canto do rio é doce

O mar é mais temperado

Só dá refeição completa

No encontro que tem marcado

Com o rio que cumpre a meta


O mar espera na praia

E quando chega o rio

Costuram as rendas das saias

De Iara e de Iemanjá

E desse encontro de deusas

Diabo não senta à mesa

O desafio é de paz


Melodia nasce no ar
Pro passarinho cantar
Palavra é pio de homem
Pra se enturmar

E todo homem tem fome

De amor, de luz e de lar

E das estrelas que somem


Nos olhos de uma morena

Existe toda a beleza

O que a natureza nos dá

Feliz aquele que conta

Com aquele olhar que encontra

O sol e a lua a brilhar


Antes que a chuva caia

Com seu canto perfumado

Vou dando por acabada

A sinfonia das águas

Pois a chuva de tocaia

Aquela que vem de repente

Tem gente que até desmaia

De tanto frio que sente

Só com o chapéu de telhado

E um capote de aguardente

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CAFUNÉ

Ela gosta é de mim

Tenho certeza

Quando vê a luz acesa

Me telefona

E vem arrumar a zona

Minha casa

Fortaleza

Ela gosta de mim

E isso é certo

Se chego perto

Ela me beija

Se vou viajar

Planeja

O que vou levar

Cueca, pijama, agasalho

- que vou levar

Meias, toalha, baralho

- que vou jogar

Cigarro, conhaque e violão

E ela dentro do coração

Ela gosta é de mim

Me cafuneia

Me dá banho

Me penteia

Liga o ventilador

Ela gosta é de mim

E eu gosto

Do seu amor.



BAIÃO DOCE


Vem comer os doces do mar
Que o sol da noite é o luar
Sou mil-folhas
Sou queijadinha
Baba de moça
A gozar
Cocadinha
Sou Brigadeiro
Papo-de-anjo
Quindim
Comer o doce do mar
Beber meu leite de mel
Cajuzinho
Bom bocado
Maria-mole
A gozar
Caramelo
Pé de moleque
Olho de sogra
Cuscus

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Morte, a Paixão, o Amor e a Boemia (um samba pro Nelson Cavaquinho)

Todo mundo morre um dia

Seja de que forma for

Morre de pneumonia

Ou de tristeza de amor


Alguns morrem com alegria

Porque a vida era ruim

Outros de melancolia

Não quero morrer assim


O amor de nada vale

Sem paixão pra semear

A paixão não vale nada

Se o amor não germinar


Se uma paixão se acaba

Ponho outra em seu lugar

Pra viver na minha aba

O amor tem que florar


Se não tenho o que comer

Não preciso de esmola

Tenho amigos pra valer

Vida foi a minha escola


Onde a lei é aprender

Não dá pra ficar na cola

Se não sabes a lição

O azar entra de sola


Amigo não é coelho

Que se tira da cartola

Não é truque de espelho

Nem é chiclete de bola


Que se usa e joga fora

Feito um sapato velho

Pois a vida não demora

Em mostrar o revertério


A paixão é o desafio

O amor é o que vale

Amizade é grande rio

Correnteza leva os males


Quem tem paixão não descansa

Quem tem amor anistia

Amizade é esperança

Renovada a cada dia


É por isso que nem ligo

Sei que vou morrer um dia

Pois só vou levar comigo

Paixão, Amor e Boemia

ANEL DE COCO

Minha aliança é anel de coco
Comprada em Parati
Na loja de artesanato
Dos índios que vivem alí

Parentes dos caiçaras
Que um dia viraram mato
Pra dar abrigo às araras
Nas matas virgens de fato

Minha viola aprendi aos poucos
Em vendas de pé de serra
Pandeiro foi na beira do cais

Meu violão é amigo dos loucos
Meu nome é nome de guerra
Mas o meu canto inteiro é de paz

Minha aliança é anel de coco
Da praia da Pedra do Sal
Por isso qualquer batuque
De palma, de muque, de soco
Tem sempre um quê sobrenatural
De terreiro, de missa, de carnaval

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

MEGAPIXÉIS



Fotografe-me.
Eu não quero deixar essa vida
Sem deixar uma pista
Uma capa de revista
Ou uma página qualquer
Uma miragem
Minha última imagem
Mas não me fotochope
Eu aceito qualquer choque
Não preciso mais de ibopes
Nem quero retoques
Quero mostrar minhas vidas
Talhadas em minhas olheiras
Meus dias pesando em meus joelhos
Cada dia revelado em meus cabelos
Pretos e brancos, cada vez mais brancos
Mas quero ainda o brilho dos olhos
Fazendo da foto um espelho
Fotografe-me sem dó nem piedade
Com todos os pixéis
Todos os pincéis digitais
Depois me deixe em paz.