segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

(ESTUDO PARA) UM FREVO CARIOCA



Não adianta
Me chamar pro Copa
Guaraná ou coca
Cantar samba em inglês
Trocar de ano
Na varanda do Fazzano
Até cair o pano
De seu ato final
Sou da garapa
Do charuto de despacho
Me amarro num escracho
Tô dispensando vocês
Eu vou pra Lapa
Vou sair no tapa
Esquentar a chapa
De saudade sua
É carnaval
Vou dizer na lata
Lugar de serenata
É na rua

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um Soneto

Rainha do inesperado
Que se alimenta do acaso
O dia é seu moleque de recados
A noite, perfume em frasco raso

É como acordar ardendo em febre
Ou dormir em cama de oceano
Enfrentar tempestades em barco de pano
Gostar de trocar gato por lebre

O oposto do amor, que eterniza
Tão forte que dele nem precisa
 Assim é a paixão quando lambuza

A vida por anos e anos
Transforma o poeta em cigano
Que advinha o poema antes da musa

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NOME DE GATA (versão light)


Ela tem nome de gata
Beleza que desacata
Um dia nissei,
No outro, mulata
Um dia responde na lata
No outro – Nem sei
Do que se trata
Duvida da conta exata
É jogo que nunca empata
Partiu numa hora ingrata
Não vejo faz uma data
Casou com aristocrata
No amor é autodidata
Cadê a minha pirata
Saudade só me maltrata
É tiro com bala de prata
No coração do primata
Chuva fria na serenata
Qual é o nome da gata?
Paixão é o tiro de amor
Quando sai pela culatra

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

VINHO VERDE (Versão original)


Comprei pra ela um vinho verde
Mandei lavar a minha rede
Aparei barba e bigode
Podei a comigo-ninguém-pode
Na cama, lençóis de linho
No coração uma esperança
Que veio nem sei de onde
Esperei feito grande criança
Afinei a voz e o pinho
Mas ela não veio no bonde
Nem no próximo nem no depois
Fiquei sozinho, quieto
De novo olhando pro teto
Que nunca será de nós dois.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

DE COPO E VIOLÃO



Mas
Encontrei essa toada
No meio da estrada
Pra Mirantão
Toada, pipa e passarinho
E de quem pegar na mão

Mas
Pelo sim, pelo não 
Pra gente cantar
Melhor era inventar
Uma nova canção

Mas 
Se a toada é boa
Se esconde no coração
E pula da memória
Em suspiro de solidão

Mas
Resisti à tentação
Procurei um abrigo
Pra não perder um amigo
De copo e de violão

Mas 
Um dia descendo de bonde
Voltou a toada a me procurar
Não sei onde ela se esconde
Voa na chuva, cai pelo ar

Mas
Compreendi então
que o melhor era capturar
Essa toada de Mirantão
Que vinha me azucrinar

Mas
Não coloquei alçapão
Não preparei armadilha
Ela que me botou pilha
E me pegou pela mão

Mas
Agora essa minha toada
Da estrada de Mirantão
Tem rima e compasso
Tem coração

Mas
É coisa de chão de barro
Cigarro que não dá em árvore
Poesia em papel de pão
Batuque em tambor de mármore

Mas
Tem a nossa amizade
Que já cantou no sertão
Que hoje invade a cidade
Com viola e violão

Mas
Podem até me acusar
De plagiar a canção
Não sabem que somos parceiros
De copo e violão

POR UM TRIZ



Comprei na venda
Um vinho verde
E uma navalha de verdade
Aparei a barba e o bigode
Como usam na cidade
Mode ela gostar, quem sabe...
Lavei a minha rede
Podei minha comigo-ninguém-pode
De estimação
Botei flores na janela
Escolhi a lenha pro fogão
E era noite clara de verão
Na cama lençóis de linho
Na sala um espaço pra dança
Nos dedos o velho carinho
No coração a velha esperança
Afinei a voz e o pinho
E as dez cordas da minha viola
Mas os cachorros não latiram
As estrelas não brilharam
Ela não veio.
Nunca veio.
Mais uma vez
Foi por um triz
Bebi sozinho
Cantei sozinho
Quieto e feliz
No meu cantinho.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Peço perdão 
Pela carestia
De versos
Os tempos
Não estão para poesia
Estão pro inverso
Estão sem rimas
Sem conversas
Sem pimenta
São dias perversos
Ninguém inventa
Ninguém mergulha
Nem se assusta
Ninguém tenta 
O buraco da agulha
Não sabe o quanto custa
Uma luz acesa
Sobre uma mesa
E a sombra de um lápis 
Escrevendo
Na madrugada
Continuam morrendo
De surpresa
Com a televisão ligada.