quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

MEGAPIXÉIS



Fotografe-me.
Eu não quero deixar essa vida
Sem deixar uma pista
Uma capa de revista
Ou uma página qualquer
Uma miragem
Minha última imagem
Mas não me fotochope
Eu aceito qualquer choque
Não preciso mais de ibopes
Nem quero retoques
Quero mostrar minhas vidas
Talhadas em minhas olheiras
Meus dias pesando em meus joelhos
Cada dia revelado em meus cabelos
Pretos e brancos, cada vez mais brancos
Mas quero ainda o brilho dos olhos
Fazendo da foto um espelho
Fotografe-me sem dó nem piedade
Com todos os pixéis
Todos os pincéis digitais
Depois me deixe viver em paz.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ERA UMA VEZ UMA CASA


O que uma casa pensa de si

Se nunca foi moradia?

Nunca mais de alguns dias

Nunca mais que um feriado?

O que pensa de si o sobrado

Que passou os natais fechado

E desfilou carnavais alugado

O que pensa de si a varanda

Que mesmo olhando pro oceano

Só tinha uma rede de pano

Para olhar o passar dos anos?

- Por que não nasci quitanda?

Teria talvez a esperança

De um dia virar mercado!

Ou continuar armazém

De secos e molhados

O que pensou de nós aquela casa

Quando a deixamos sozinha

Do dia pra noite

Batemos asas como andorinhas

Em busca de outro verão

Virou só uma fotografia

Solar, do que não mais existe

Perdeu o mar na janela

O luar na soleira da porta

Ela nem é mais ela

E ninguém mais se importa

Como se casa não tivesse coração

Hoje eu descobri, muito triste

Que coração, ela tinha

Nós é que não.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

RAINHA

Rainha das noites acesas

Iara dos rios estrelados

O tempo

É seu moleque de recados

Cachaça de cabeça

Poesia noturna

E sem pressa

Traz amores do passado

Pra navegar

Pelas salas brilhantes

Dos subúrbios

Entre velhos jacarandás

Varando as madrugadas

Tontas e lentas

De horas contadas pelos trens

Tem nas lágrimas

O fogo das pimentas

Que nenhum colírio

Conseguirá acalmar

Todas as noites

Resolve os problemas do mundo

E quando o dia adormece

Em sono profundo

Deixa as manhãs

Pra quem não sabe voar.

BAR

Acordei

O dia

Já estava proposto

Mais um dia

Um imposto

A contragosto

Acendo o olho

E não era de manhã

Encolho

Tudo era

Continuar ali

Deitado

Esperto

De molho

Como um tiragosto

Decorando o teto

Nem carinho nem afeto

Nem rumo certo

Livro inútil

Analfabeto

Triste perfeito

Uma noite

Fútil

Sem bar aberto

NOVEMBRO

Nas tardes nervosas

É quando me lembro

Mais de você

Chegando chuvosa

Querendo calmantes

Sem saber por quê

Suando nas mãos

Pedindo outra dose

E eu tentando antes

Te acalmar por osmose

Nessas tardes estranhas

Geralmente em novembro

Eu movia montanhas

Pra te ver sorrir

Mas já tinha a manha

Pra ver cada membro

Querendo partir

Queria alto mar

E eu era o porto

Tentando te segurar

Nessas tardes nuviosas

De céu claro-escuro

Seus olhos duros

Feito ardósias

Queriam me petrificar

Entre as amarras do cais

Até que zarparam

Sem olhar pra trás

Já era dezembro

De tardes fluviais

Mas fiquei em paz

Novo Coração

Ela me pluga

Me beija, me suga

Me sanguessuga demais

Procura outro rapaz

Se não mais me deseja

Depois me aluga

Me molha, me enxuga

Me beija as rugas da testa

Chega trazendo uma festa

Quando a cidade madruga

Ela me ensinou a voar

Dentro das nuvens do mar

Ela me ensinou a nadar

Sobre as ondas do céu

Sem sair do lugar

Ela é a chuva que vem primaverar

Minha vida desértica

Minhas noites antárticas

Ela é sempre mais um verão

Feito um novo coração

LAVANDA

Pandeiro tem platinela

Bicicleta tem pedivela

Meu coração tem janela

Que abre pro mar

Marinheiro tem barco a vela

O segredo é de quem não revela

Birosqueiro é rei na favela

Acorda antes do bar

Minha casa tem varanda

(onde canta o sabiá)

Meu jardim é minha quitanda

O bonde é lento mas anda

Grande marionete a rodar

Meu amor é minha lavanda

Lavanda que vem me lavar

Lavanda que vem perfumar

Lavanda que vem me amar